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Paulo César Lima, 60 anos.

No mundo do futebol, Paulo César Caju.

Nascido em 1949 no Rio de Janeiro, o ex-jogador foi revelado pelo Botafogo em 1967 e jogou pelo Glorioso até 1971, vencendo dois Campeonatos Cariocas (1967 e 1968), além da Taça Brasil de 1968. Ainda muito jovem, mas já demonstrando grande qualidade com a bola nos pés, o ex-ponta esquerda foi convocado para a Seleção Brasileira que disputou e venceu a Copa do Mundo de 1970. Nesse mundial, Caju foi reserva de Rivellino. Quatro anos mais tarde, na Copa do Mundo de 1974, Paulo César Caju foi titular da equipe brasileira que terminou o mundial na quarta posição.

Depois que saiu de General Severiano, Paulo César Caju se transferiu para o Flamengo. Na Gávea, o ex-jogador atuou entre 1972 e 1974, jogando 105 partidas e marcando 19 gols. Caju também jogou pelo Olympique de Marseille, da França, Fluminense, Vasco, Corinthians e Grêmio. Pela equipe gaúcha, o ex-ponta esquerda foi titular no título Mundial de 1983 vencendo o Hamburgo, da Alemanha.

Ídolo do futebol nos anos 70 e 80, Caju viveu sua pior fase da vida após abandonar os gramados, quando passou a conviver com as drogas e a bebida, vícios que quase o tiraram a vida. Depois de 15 anos usando drogas, o ex-jogador se recuperou da dependência química há dez anos e atualmente faz palestras para crianças e jovens por todo o Brasil, contando sua história com o objetivo de livrar os jovens dos vícios. Em entrevista exclusiva para o MFC, o ex-jogador relatou como começou o vício, como se livrou e de que forma instrui os jovens.

MFC: Caju, qual foi seu envolvimento com as drogas? Já as usava durante sua carreira como jogador?
PC Caju: Eu nunca fui usuário, fui atleta. Comecei a jogar bola profissionalmente com 16 anos e parei com 36, quer dizer, 20 anos de carreira. Nunca fumei, nunca bebi, nunca cheirei. E quando eu parei de jogar, não tinha que dar satisfações para mais ninguém e estava um pouco chateado com o final da minha carreira, aí por livre e espontânea vontade minha, com alguns amigos, eu experimentei a cocaína, depois experimentei a birita e fui viciado nisso durante 15 anos. Então, o que eu tenho a dizer é o seguinte: quem nunca experimentou, atleta ou não, que não experimente, pois é algo muito ruim, destruidor.

MFC: Você acha que o esporte é algo que livra as crianças do mundo das drogas?
PC Caju: Ah, não tenha dúvidas. Eu vim de uma favela, a favela dos Tabajaras, em Botafogo, no Rio de Janeiro. Estou com 60 anos e morei no morro até os 10 anos. Naquela época não tinha tráfico, não tinha bandidos, não tinha armamento pesado, não tinha drogas dentro do morro. As favelas também não eram escondidas, então não tinha a grandeza que tem hoje. Eu tive essa sorte e por isso não tinha como se encaminhar para o rumo errado. Eu já era bom de bola desde garoto, sabia que era bom, mas não tinha maus elementos dentro do morro para seguir. Diferente de hoje, que as crianças não têm opção. Em qualquer parte do Brasil onde tenha periferia, além do grave problema com o crime, tem as favelas, tem as drogas e a criança que está dentro de um lugar desses não tem como fugir. Elas não têm uma possibilidade de um estudo melhor, acesso a cultura e ao esporte, pois dentro da comunidade elas são induzidas a trabalhar no tráfico. Começa como olheiro, depois passa a ser gerente, chefe e o fim é a morte. Então quer dizer, hoje é até difícil falar para a criança não experimentar, os caras (traficantes) forçam, como é que faz? A droga está infiltrada em todas as camadas sociais, no pobre, no rico, no milionário, no preto, no branco, em todos os lugares.

MFC: Um caso recente de jogador envolvido com as drogas foi o Jóbson, do Botafogo. Por ser um rapaz novo, que passou por todos esses problemas e pode até ser banido do futebol, você acha que o banimento dele do futebol é a melhor medida para se tomar?
PC Caju: Não. Você tem que ver o seguinte: o Jóbson vem de onde? Do Pará. Dentro da Amazônia. Então você vai por aí. A cultura e a educação dele são diferentes. Ele saiu de lá do interior do Brasil e foi parar aonde? Em Brasília. Quer dizer, com 16 anos já estava jogando futebol profissional no Brasiliense e desde essa época já tinha problemas com o álcool e depois com as drogas, que só apareceram após aquelas duas vitórias que salvaram o Botafogo do rebaixamento no Campeonato Brasileiro de 2009. Depois veio à tona o exame antidoping e ele mesmo declarou que era viciado em crack. Quer dizer, você tira pela educação, pela cultura, é um garoto que saiu de dentro da Amazônia e de repente está em Brasília, em outra realidade. Depois vai para o Rio de Janeiro e estoura no Botafogo. Um dos problemas que podem ter afetado o Jóbson foi estar sozinho em duas cidades grandes como Brasília e o Rio. Não sei se ele teve a família morando com ele nesses lugares. E é normal um cara tomar uma birita não tendo acompanhamento e estrutura. Com a fama, começou o deslumbramento, bons bichos (premiação paga aos jogadores após resultados positivos), companhias. Isso é normal, você viaja. O Rio é uma cidade sedutora, tranquilamente se você não tiver estrutura, se não tiver equilíbrio e boas companhias ao lado, dança.

MFC: Como funcionam suas palestras sobre as drogas?
PC Caju: Eu faço há quase 10 anos palestras sobre esse assunto. Eu sempre sou convidado, já fiz em vários estados do Brasil, algumas vezes até com psiquiatras ao meu lado também. É um negócio que eu alerto as crianças e os jovens. Como eu fui um ídolo do futebol, os mais velhos, os pais desses jovens que acompanharam a minha carreira, logicamente têm como chegar aos filhos e dizerem: Ele chegou ao auge e depois faltou equilíbrio e estrutura e ele foi pelo caminho errado. Minha história serve como exemplo.

NOTA: Como ídolo do Botafogo e torcedor apaixonado do clube, Paulo César Caju deve estar muito feliz com o título do Glorioso no Campeonato Carioca, algo que há duas semanas, no dia da entrevista, ele achava pouco provável de acontecer.

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